A verdade de Donald Trump (ou “Ideologia, eu quero uma pra viver”)

A verdade de Donald Trump (ou “Ideologia, eu quero uma pra viver”)
René Magritte, O duplo secreto (1927).

Por Felipe Demier, em 05 de janeiro de 2025.

Aqueles que, carentes de refluxo gástrico, conseguiram acompanhar a cobertura do sequestro de Maduro e sua esposa pelos grandes meios de comunicação devem ter se deparado, em algum momento, com a informação de que o sequestrador Trump lançou mão por catorze vezes da palavra “petróleo”, enquanto sequer uma só vez pronunciou o termo “democracia”. Tal fato, decerto, foi objeto de lamentos da parte dos finórios especialistas sempre a postos para comentar nos mass media os atos imperialistas – especialistas cuja principal especialidade consiste, claro, em usar uma gramática na qual inexistem palavras como “imperialismo”. Assim, curiosamente, a verborragia autocrática de Trump acaba por se opor à litania liberal-democrática tal qual a claridade se opõe à escuridão, evidenciando como a ideologia do capital, ao atingir seu fastígio com o neofascismo, parece se evanescer, na medida em que os rebuços são lançados ao chão, o véu cai do rosto e a indumentária, desnecessária, é retirada do corpo. O rei do capital está nu, e a sua alaranjada nudez, por didaticamente revelar sua maligna essência, incomoda por demais os especialistas liberal-democráticos, saudosos das vestes pretéritas – ou dos reis antepassados – as quais lhes permitiam melhor exercer seu ofício de ideólogos: falsificar as coisas por meio de ideias que não lhes correspondem. Dito de outro modo: enquanto Trump desnuda o imperialismo total, a verdade incontornável do capital neste segundo quartel do século, os espadachins mercenários da “burguesia democrática” se esmeram em tentar vesti-lo o mais rápido possível, antes que toda nudez – uma vez revelada às massas – possa vir a ser castigada.

Quando o ultraneoliberalismo, como resposta do capital à crise de 2008, engendrou o neofascismo, ocorreu aquilo que alhures chamei de uma cisão entre duas ideologias constitutivas da época neoliberal iniciada na década de 1980, a saber, a ideologia que apregoa a redução ou até mesmo o fim da intervenção keynesiana e social do Estado, e aquela que afirma ser a democracia liberal (e tanto melhor quanto mais blindada esta se mostre) a suprema e, quiçá, a única forma de organização política da sociedade contemporânea. Assim, nas últimas duas décadas, a defesa da privatização das tais funções sociais do Estado e de sua ausência em termos de planejamento econômico tornou-se, para muitos, também a defesa do fim da “política”, isto é, das tais instituições liberal-democráticas. Instados pela própria ideologia neoliberal a se comportarem como empreendedores, como empresários de si mesmos, muitos passaram, diante da crise social aguda, a agir como adversários mortais uns dos outros na arena do mercado, onde a guerra de todos contra todos seleciona, supostamente pelo mérito e esforço individual, aqueles (cada vez em menor número) que terão acesso a recursos (cada vez mais escassos) como emprego, saúde, educação, moradia, lazer e mesmo sexo.  Cada vez mais atomizados e egoístas, nossos cidadãos portam-se como mônadas concorrenciais para os quais a democracia, enquanto sinônimo de política, não é senão um “sistema” que, em função de seus agentes “corruptos” que precisam de votos para permanecer no poder, acaba desequilibrando em favor dos “acomodados” e dos que “não se esforçaram o suficiente” a hobbesiana e lancinante bellum omnia omnes que caracteriza a sociabilidade burguesa hodierna. Alegando não haver um lugar ao sol para todos nos atuais tempos de crise – o que, por sinal, é verdade – o neofascismo imputa à democracia e à “política” a responsabilidade pelo fracasso dos que, mesmo com seu justo esforço e mérito próprio, ainda assim não obtiveram êxito social, pois estariam sendo prejudicados por um “sistema” que, para se reproduzir, protege certos grupos específicos e minorias (negros, imigrantes, migrantes, mulheres, indígenas etc.). 

Desse modo, quando Trump sequestra Maduro em pleno solo venezuelano e deixa evidente que o fez por conta de interesses petrolíferos e não por qualquer “defesa da democracia”, a ideologia liberal-democrática, antes constitutiva, como vimos acima, do capitalismo neoliberal, parece finalmente encontrar seu ocaso. Sem mais serventia ao império, ignorada na coletiva do imperador, ela, junto ao restante do “entulho” iluminista do tempo dos pais fundadores, se desfez num átimo, tal como outrora a burguesia francesa rapidamente substituíra seu célebre lema revolucionário Liberté, Égalité e Fraternité pelo contrarrevolucionário adágio “Infantaria, Cavalaria [e] Artilharia!”. Da escuridão da noite em Caracas, emergiu com clareza a verdade do capitalismo atual, com sua sanha imperialista total contra os povos e a natureza. De tão verdadeira, a verdade banhada em petróleo desarticulou por completo nossos especialistas dos mass media cujo ofício sempre foi, a serviço dos mesmos patrões de Trump, encobri-la diuturnamente com ideologias liberal-democráticas. Ávidos e com pressa num mundo que já não dispõe de muito tempo, boa parte dos tais patrões parece agora se inclinar ao neofascismo, dispensando, portanto, as frivolidades ideológicas que aqueles comentaristas lhes ofereciam em troca de significativa remuneração.

Importante notar como mesmo o estratagema do suposto “Cartel de Soles” foi enunciado por Trump de um modo propositalmente tão cínico que o objetivo parece ser que ninguém, nem mesmo a própria imprensa burguesa, consiga tomá-lo como verdadeiro. Trump quer deixar claro que a verdade é outra, e no seu discurso as palavras de fato correspondem às coisas – com perdão aos foucaultianos. O rei atual do capital faz troça das veleidades democráticas e da soberania nacional, e, como se segurasse embaixo do braço não o inútil “regulamento” do tal direito internacional e sim algumas brochuras de Vladimir Ulianov, proclama aos quatro cantos do globo que removeu Maduro do poder porque assim ele e as irmãs petroleiras o quiseram, e ponto final. É claro que ainda resta ideologia, mas ela não vai muito além daquela, expressa pelo próprio Trump, que afirma serem os Estados Unidos uma nação destinada – talvez desde o Destino Manifesto – ao papel de “xerife do mundo”, mas isso é cada vez menos ideológico tanto mais se torna simplesmente verdadeiro.

É bem verdade que até o último dos jornalistas da Globo News sabia que Saddam Hussein não possuía armas nucleares, que a oposição islâmica a Assad não era propriamente amante da liberdade e que os traficantes de escravos que hoje controlam parte da Líbia pós-Kadhafi não se empenhariam na edificação de um “Estado de Direito”, mas ao menos havia da parte dos invasores o apelo retórico à democracia, o qual era possível de ser reproduzido pelo cinismo liberal. “Sim, a gente sabe que tinha petróleo em jogo, que Dick Cheney tinha relações íntimas com a Halliburton, que Obama bombardeava os afegãos e asfixiava os cubanos por interesses econômicos, mas ao menos todos falavam em democracia. Mas e agora? Se também não há democracia na Venezuela, por que Trump ao menos não usa essa desculpa e facilita nosso trabalho??? – indagam in off nas redações os Demétrios e Mervais, com suas mentes e tons nada geniais. Trump não fala simplesmente porque não precisa e, nesse ponto, ele é ao menos mais coerente que seus predecessores, que clamavam por democracia enquanto sustentavam regimes cruentos, racistas e sexistas no Oriente Médio, assim como um genocídio em Gaza. A César o que é de César, mesmo que este tenha cada vez mais pretensões cesaristas. Trump fala exatamente o que faz, e aqueles que têm ouvidos que ouçam, como está em Mateus.   

Assim, o momento de verdade da ideologia neofascista de Trump acaba sendo, dialeticamente, a verdade do momento, a ideologia sem ideologia adequada ao atual momento do capitalismo imperialista atual. “Como era gostosa a nossa ideologia...”, lamentam-se agora os ideólogos de uma burguesia que já parece poder dispensar a ideologia, os democratas de um capitalismo que já não faz mais muita questão da democracia. A estes, jogando limpo o seu jogo sujo, Trump, sabendo que Deus abençoa a América, retruca: “Porquanto não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.” (Lucas 8:17).

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