Economia política dos escombros: o Comitê de Trump para Gaza e o Projeto Imobiliário “Sunrise”
Por Carolina Freitas, em 22 de janeiro de 2026.
A conjuntura política na Faixa de Gaza neste início de 2026 está mudando, ainda que os bombardeios, mortes, prisões, ataques sigam, a despeito do cessar-fogo pactuado em outubro do ano passado. Há em curso a institucionalização de um novo modelo de gestão da operação genocida no território palestino. O anúncio recente da formação de um “Conselho da Paz”, sob a égide de Trump, reflete a fusão próxima entre a ofensiva colonialista e o capital imobiliário global. A tal miragem chocante do vídeo IA produzido por Trump em fevereiro de 2025, em que não apenas projeta um futuro de resorts, mas deleta digitalmente um povo, é, nesse momento, um plano viabilizado e colocado em prática.
O comentário predominante na imprensa é que a composição do tal “Conselho da Paz” expressa certamente a substituição do (há muito) esvaziado multilateralismo da Organização das Nações Unidas (ONU). As lideranças da empresa colonial acertam-se por si mesmos. A inclusão de Marco Rubio no tal conselho sinaliza garantias a Netanyahu, sobretudo o objetivo de desmilitarização do Hamas, e Tony Blair serve como ponte entre o Ocidente e as monarquias árabes. No entanto, menos destacada pela imprensa internacional é a presença de Jared Kushner, que define o maior ineditismo do projeto.
Kushner é, como se sabe, mais que meramente genro de Trump. Suas intenções, declaradas ao longo dos meses, sempre exultaram cálculos do valor potencial das propriedades à beira-mar em Gaza. Também compartilha desses interesses outro convidado por Trump, Yakir Gabay, magnata sionista do real estate, acionista de uma das maiores incorporadoras imobiliárias do mundo, a Arountown. Rubio, Blair, Kushner e Gabay têm a missão de converter o território devastado em ativo imobiliário rentável para os fluxos do capital internacional. A solução trumpista desloca a política de Estado para a política do loteamento fundiário e para as previsões de fluxo de rendas imobiliárias. O que “presentifica” o futuro desse capital fictício imobiliário é a literalidade dos escombros.
Com mais de 70% das infraestruturas de Gaza danificadas ou destruídas até o início de 2026, a região é a maior concentração de escombros do mundo. O “urbicídio” (como nomina Stephen Graham, entre outros autores) é uma das formas do genocídio; não se trata de dano colateral, e sim de um fim de alta importância estratégica para o imperialismo e sua política colonial. A destruição total de bairros históricos, universidades e centros culturais foi o pressuposto para que o genro Kushner, junto a Steve Wittkoff, outro magnata do real estate e enviado especial de Trump para o Oriente Médio, lançassem o “Projeto Sunrise”.
Trata-se do desenho arquitetônico de uma “megacidade futurista” e “inteligente” na Faixa de Gaza, configurada sob a lógica da tabula rasa. O projeto não apenas ignora, mas visa justamente a destruição da memória palestina, tratando o solo de um povo em dizimação como uma mega plataforma logística e turística. Uma “Riviera”, cuja assepsia garante uma limpeza física e memorial do território histórico.
O plano de reconstrução, orçado em mais de 112 bilhões de dólares, propõe zonas econômicas especiais e infraestruturas de alta tecnologia na malha urbana histórica de Jabalia e Shujaiya. Na concebida administração pelo conselho, as decisões políticas serão balizadas pela demanda do uso e ocupação da terra pelos comitês de investidores em Washington, Tel Aviv, Cairo e Abu Dhabi (sem, é claro, qualquer participação direta e soberana de representantes palestinos).
O que se propõe é uma “gentrificação bélica”, para usar o termo de Marco Cremaschi. A arquitetura é utilizada como arma de sepultamento definitivo: arranha-céus na orla para a elite global, aos sabores de Balneário Camboriú ou Dubai, mas aplicado a uma zona de massacre. O direito ao retorno, nascido há tanto tempo, a partir da Nakba, vai sendo inviabilizado pela sofisticação dos meios de reprodução do capital financeiro.
O extermínio agora se torna um custo operacional não só aceitável ou desejável, mas necessário à ideia de progresso imobiliário. A criação destrutiva dos empreendimentos que demolem espaços históricos e sociais de comunidades inteiras pressupõe, desta vez e neste caso, a demolição do próprio povo. O luxo e suas rendas de monopólio, nessa empreitada do “urbanismo-militar”, pressupõem e planejam o trauma do extermínio material e cultural.
Vale lembrar que a estratégia de obliteração física do território histórico e da possibilidade de apagamento definitivo da identidade palestina, sob o peso das torres de vidro e dos complexos hoteleiros, não é exatamente nova, não começou em outubro de 2023, nem advém tão somente dos aliados de Trump. O longo curso de expulsão dos palestinos de suas terras através das décadas por parte do Estado de Israel e sua política de ocupação imiscui colonialismo e gentrificação urbana, como indicam estudiosos no assunto, como o geógrafo israelense Oren Yiftachel. Mas o Projeto “Sunrise” revela um experimento bélico-urbanístico que inova na escala do controle social.
Muito diferentemente de reconstruções históricas, como o Plano Marshall no pós II Guerra, a intervenção em Gaza para 2026 tem como fundamento uma hipertrofia inédita no monitoramento e na segregação étnico-espacial. O plano prevê a criação de zonas de exclusão e corredores de segurança que fragmentam ainda mais o já fragmentado território palestino. Para planejar o desenvolvimento de infraestruturas de luxo e polos tecnológicos na costa (para o turismo e a logística de gás offshore), o projeto empurra a população palestina para guetos chamados “núcleos urbanos densificados” no interior, de modo que a população originária remanescente seja controlada e isolada como “risco” e “excedente”, ou classificada como força de trabalho nos serviços dos empreendimentos de luxo.
Isto remete ao caráter da proposta de transformar Gaza em um hub tecnológico; a arquitetura de hipervigilância é um experimento demográfico, que filtra indivíduos por meio de sistemas de identificação biométrica e controle de acesso, onde apenas os integrados ao sistema produtivo e “neutralizados” pelas forças de segurança possuem direito à circulação. Não é preciso lembrar do investimento em controle biométrico testado em larga escala ao longo de todo o processo genocidário irrompido em 2023, seja nos bombardeios por drones, seja nas macabras filas de comida que serviram como armadilha para assassinatos.
Como já dito, o experimento de segregação e espoliação urbana de palestinos pelo Estado sionista não é novo e, mesmo antes dos anúncios sobre projetos como “Gaza 2035” e “Sunrise” por orientação do governo dos EUA, já eram difundidas por empresas israelenses de construção alguns prospectos de assentamentos e resorts sobre as ruínas de Khan Younis. Mas, agora, esse tratamento do genocídio como um custo operacional aceitável poderá ser reconfigurado e recauchutado, assumindo a feição por uma elite do capital imobiliário e tecnológico internacional, com quadros sionistas acionistas desse capital, no que seria a fase última do massacre.
A resistência palestina, neste cenário, é criminalizada não apenas como ameaça à segurança, mas como “ameaça ao clima dos investimentos”. O interesse de Gabay personifica o realismo empresarial que enxerga na destruição total uma oportunidade única de “distressed real estate” (“mercado imobiliário em situação de estresse”). Nessa ideia de reconstrução ressignificada como uma operação de asset management, em que palestinos são obstáculos contratuais, é premente refutar e denunciar o Conselho de Paz e sua estratégia imobiliária. Nunca o direito ao retorno à terra originária foi tão urgente.