"Federação" é uma pauta errada, que não interessa à esquerda

"Federação" é uma pauta errada, que não interessa à esquerda
"Os Embaixadores", por Hans Holbein, de 1533. Exposto na Galeria Nacional de Londres

Por Elídio Alexandre Marques, publicado em 03 de março de 2026

O debate entrou na sala como aquele não convidado, meio inconveniente, que atrapalha a conversa que já tinha coisas bem difíceis para resolver. Qualquer “não fascista” no Brasil tem uma preocupação fundamental: a permanência da força da extrema-direita interna depois de mais de 3 anos de mandato de Lula. A vitória nas eleições presidenciais de 2022 produziu um elemento de contenção, mas não um deslocamento estrutural das forças sociopolíticas. O cenário internacional, por sua vez, torna tudo mais difícil.

Os desafios são gigantescos, embora também haja oportunidades. Vejamos como se montou o cenário:

1- A oposição ao imperialismo de Trump, a defesa da melhoria de vida dos trabalhadores - na luta contra a pejotização e pelo fim da escala 6x1 - oferecem oportunidades concretas de polarizar positivamente para nós na política. O fato de que partidos de direita já tenham se colocado contra o fim da famigerada jornada é uma oportunidade de ouro: colocar na mesa e nas ruas as diferenças que fazem diferença.

2- Num cenário de relativa fragilidade - o "sonho" de chegar a este momento com a vitória pelo menos para presidente assegurada passou longe de se realizar - é claro que há na base política e eleitoral progressista, muito amedrontada e mais conservadora desde 2016, uma vontade de unidade contra o "mal maior", o terrível, o inominável que seria devolver a chefia do executivo a um golpismo que agora viria renovado, fortalecido e com mais "know how" destruidor.

3- É neste lusco-fusco de medo e crise que surgem as iluminações milagrosas, as ideias mirabolantes, as “grandes sacadas geniais” para resolver com movimentos supra políticos rápidos o que é profundamente difícil na realidade de hoje. E é compreensível que a promessa de milagres encontre adeptos entre os justamente amedrontados. O que não se pode é extrapolar do senso de oportunidade para a pouca responsabilidade.

4- Sagazmente, na incapacidade ou impossibilidade de fazer coisa maior na política, especialmente no flanco esquerdo, o PT e um setor do PSOL (ligado a Boulos) que dele muito se aproximou sacam da algibeira, aos 40 e tantos do segundo tempo da organização para as eleições, a "proposta" da Federação do PSOL com o PT (e PV e PCdoB).

Mas voltar um passo: O que é uma "Federação"? É um tipo de formação em que diferentes partidos funcionam como um só durante 4 anos. Não tem nada de imoral nisso. É uma instituição do direito eleitoral brasileiro que, como qualquer outra, regula do ponto de vista das forças sociais dominantes os processos eleitorais (sempre injustos em algum nível nos regimes capitalistas).

A ideia de "juntar" tem apelo de massas. O PT e o Psol do Boulos sabem disso e estão fazendo política de atrair setores eleitorais sensíveis a ele. Simpatizar com isso não é crime nem errado em si. Onde estão os problemas então?

1- A política do PT, ao longo das últimas décadas, compreenda-se como necessária ou critique-se como errada, foi de ir sacrificando a disputa nas bases, nos estados e municípios, em favor da disputa pela presidência. Veja como o PT já governou o DF e estados como RS, RJ (temporariamente) e MG, onde hoje tem expressão muito menor. Em MG e no Rio sequer tem condições de cogitar disputar. Parte da força do PT nos estados e grandes cidades (Rio e São Paulo) migrou para o centrão ou para a direita, parte foi "salva" na esquerda pelo PSOL. Além de "territórios" físicos, o PT também abandonou "territórios" programáticos e ideológicos, como na área econômica e na radicalidade do combate a privilégios.

2- Desde 2016 correta e generosamente o PSOL abriu mão de um perfil de maior diferenciação com o PT por uma necessária oposição ao golpe e ao golpismo e por posturas de maior confluência. Isso foi necessário e educativo em boa parte. No entanto, houve uma dificuldade: manter para parte de seus parlamentares e base viva a razão de existência do partido: a consciência de que a luta contra a extrema-direita e o neoliberalismo no Brasil exigem um polo mais ativo, ousado, menos pressionado pelas alianças, mantenedor de um horizonte vivo de alteração profunda das condições de vida das maiorias. Não apenas uma parte da base político-eleitoral, como uma parte dos eleitos, foi deixando de ser lembrada disso ao longo da década e tendo seus laços com o projeto enfraquecidos.

3- Ir moderando e caminhando para a direita não só não é a única forma de impedir que a extrema-direita vença como é de eficácia discutível (respeitando aqui o debate e não vaticinando simplificadamente qual seja o sentido tático necessário). A existência de uma alternativa de esquerda com outro perfil, um perfil mais nítido, dificilmente pode ser negada como um instrumento no mínimo útil e provavelmente indispensável ao antifascismo. Uma esquerda de esquerda consequente e inteligente pode ser uma barreira que faça toda a diferença ao extremismo da direita que se vale tanto da captação dos desalentados.

4- O debate não é meramente matemático. É concreto. Haver hoje, como houve no passado, candidaturas a governador (e a deputado e a senador) com o perfil que o PSOL pode oferecer em diversos estados fundamentais pode ser não apenas bom, mas absolutamente necessário para que haja chance de derrotar nacionalmente a extrema-direita. O PSOL teve mais de 3,5 milhões de votos em 2022, Lula venceu a besta por 2 milhões. Alguém tem dúvida?

5- Neste momento, federar PSOL e PT significa deixar provavelmente “na chuva” e sem ânimo os milhões de eleitores de Lula que não querem votar na chapa Paes-família Reis no RJ, no Rodrigo Pacheco em Minas ou no próprio PT na Bahia. Esse contingente não iria sumir nem migrar para a extrema-direita, mas iria murchar, se constranger, se apagar e deixar as ruas e redes ainda mais para a sanha do protofascismo.

Sabendo de tudo isso… infelizmente… o PT e a ala de Boulos do Psol resolveram fazer movimentações ... Com todo o respeito às pessoas de boa fé que acreditam que seja uma solução estas são, no mínimo, inoportunas. O mundo está lutando contra projetos apocalípticos. O Brasil pode ser atropelado por eles. Temos na esquerda unidade suficiente para o fundamental e temos debates importantes cuja existência neste momento nos fortalece; os grupos indígenas, os ambientalistas e os estudantes que hoje têm críticas às políticas governamentais podem não ser suficientes, mas são contingentes cuja mobilização é absolutamente necessária para derrotar, inclusive nas urnas, a barbárie.

Importante dizer que reeleger Lula não se coloca como um passeio a fazer ou como "algo bom", mas como única alternativa a que nos trouxeram as limitações da própria esquerda e a força da ultradireita. Não é charmoso. É sobrevivência. Não é uma opção óbvia. Em condições melhores haveria um debate sobre o que fazer no 1o turno (o Boulos disputou com o Haddad em 2018, não foi?). Em vez de brincar de crisezinha interna nas vésperas das eleições deveríamos estar todos ocupados em empurrar este governo e seu líder para a única postura que pode levá-lo à vitória (provisória) e nos livrar de uma derrota (duradoura): a combatividade.

Denunciar as posturas políticas da ultradireita contra as maiorias, entrar com mais força e eficiência nas batalhas da comunicação, pressionar o governo a não fazer barbeiragem e a assumir compromissos, mostrar altivez e capacidade de mobilizar o nosso espaço, sugerir com gestos e força que o PT vá incidir sobre outras áreas políticas (por que não pressionam o PSB a federar-se e os partidos que tem ministério a melhorar suas posições nos estados? por que eles não são sensíveis a essas pressões? e o Psol tem que ser?), ter uma agenda política nestes longos e decisivos meses antes da campanha, fazer uma campanha antiguerra, antiimperialista. Há muita coisa melhor que fazer, que dialoga muito melhor com setores amplos e que ajuda muito mais a derrotar a extrema-direita do que este debate que soa tão esquisito e tortuoso que vende a falsa ideia de que há os que são contra e os que são a favor da unidade.

Amanhã, se o mundo for outro, outros debates faremos. Por hoje, bora lutar!


Elídio Alexandre Marques é professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É filiado ao PSOL – RJ desde a sua fundação e integrante da corrente Ecossocialistas.

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