"O AGENTE SECRETO" é ainda mais importante do que ótimo: algumas anotações sobre a ditadura que nele está e que segue

Na profusão de críticas e críticas às críticas sobre "o filme brasileiro do ano" quero anotar algo que pode ser ainda maior do que ele próprio: os aspectos sobre a ditadura que ele ressalta e que são de presença muito rara na cinegrafia sobre o período

"O AGENTE SECRETO" é ainda mais importante do que ótimo: algumas anotações sobre a ditadura que nele está e que segue
Tereza Costa Rêgo, Pátria Nua ou Ceia Larga (1999)

Por Elídio A. B. Marques*, em 12 de janeiro de 2026.

Na profusão de críticas e críticas às críticas sobre "o filme brasileiro do ano" quero anotar algo que pode ser ainda maior do que ele próprio: os aspectos sobre a ditadura que ele ressalta e que são de presença muito rara na cinegrafia sobre o período:

1- A ditadura não foi um sistema binário simples entre repressores estatais profissionais e resistentes bem decididos e igualmente claramente delimitados. Ela implicou em uma rede imensa e complexa amalgamando interesses e empresas privadas e estatais, procuradores de agentes internacionais, profunda deterioração ética de indivíduos das forças policial-militares mas também de seus próximos, fomento da cultura da violência e do menosprezo pela vida alheia, especialmente do trabalhador, do pobre, do "desordeiro". Nela está a origem da dimensão que o milicianismo, a predação do público pelos ricos, o ódio ao conhecimento independente tem no Brasil de hoje. 

2- As resistências tampouco reduziram-se às pessoas e grupos armados retratados - e ainda bem que o são - em outros filmes. Gente comum não militante fez gestos simples e corajosos: guardou segredos, levou informações, salvaguardou gente, fez contatos, contentando-se em saber só o essencial, o suficiente para prevalecesse o apelo ético. A resistência pesquisou tecnologia, trabalhou em repartições públicas e protegeu pessoas em seus predinhos familiares. 

3- Há fios que a ligam através de gerações e oceanos estas resistências. Sebastiana - Tânia Maria, 78 anos, novo rosto do cinema nacional - foi comunista e anarquista na Itália de Mussolini, a angolana que acabou por “brigar com os dois lados”, a dentista, o estudante, a filha rica que quer redimir a culpa por sua ancestralidade expropriadora. A luta contra a ditadura no Brasil não é isolada da Terra e nem da História. 

4- A ditadura perseguiu a Ciência e o "Desenvolvimento" em seu sentido mais autônomo, democrático e independente. Durante seus 21 anos oficiais, mas com imensas repercussões até hoje, numa fase decisiva da inserção do país no mundo, a ditadura logrou criar um tipo de Universidade e de pesquisa em C&T moldados para uma "potência" limitada, sul-centrada, subordinada, privatizável. As fronteiras porosas entre público e privado não são uma "falha", mas um projeto de estado. A República só serve para acusar "o outro". O prejuízo legado ao desenvolvimento da Universidade brasileira está muito longe de ser aquilatado, não há registros suficientes das carreiras interrompidas e das motivações por trás disso. Os professores não tinham estabilidade e possivelmente milhares deles não tenham tido seus vínculos renovados por julgamentos bem ou mal feitos de compromissos ideológicos ou simplesmente por pequenos interesses arbitrários. Uma das reações mais sintomáticas é a de pessoas que dizem não entender o que aconteceu com Armando. Cada universidade tinha um organismo, um corpo estranho, venenoso, covarde, como um escritório de censura do futuro, que avaliava quem servia ou não para continuar. Seus arquivos quase não existem. 

5- A ditadura e a resistência existiram e muito no Nordeste e fora do cenário urbano que domina a autorepresentação do país. A forma como se expressou nas periferias – das grandes cidades e do território nacional – é particular, muitas vezes mais complexa e violenta e muito subrepresentada mesmo nas expressões culturais que preservam a memória das resistências. 

6- Política corrupta, matadores de aluguel, escroques que nem as Forças Armadas repressivas assimilavam não são uma patologia, mas um instrumento fundamental de um projeto político disciplinador. Aparato repressivo do Estado e a violência na fronteira do sadismo de seus próximos clandestinos são irmanados. E pagos por quem está longe dali. 

7- Há um mundo de histórias e situações ocultas. O trabalho quase casual das personagens pesquisadoras é a pista que o diretor-autor nos deixa. Armando é um personagem, uma história, uma fita. "Não está no google, é pré-google". É preciso pesquisar, é preciso haver arquivos, lê-los. O que sabemos é o bastante para termos uma compreensão geral, mas é muito pouco se tentarmos descer às múltiplas e imensas consequências humanas. O filho não cresceu apenas sem o pai e a mãe, ele cresceu tendo que fazer força, fingir força para “esquecê-los” ou lembrá-los de uma forma que não o inviabilizasse. A soma destas dores é impossível de ser contabilizada e temos que continuar somando-as mesmo sabendo disso. 

8- Muito do conteúdo de nossas mídias - e, portanto, de nossas conversas públicas – inscrevem-se em culturas muito alimentadas no período e diretamente relacionadas às pressões objetivas do regime. As páginas sangrentas de nossos jornais, com fotos de pessoas assassinadas e especulações sobre motivações, tanto quando casos escabrosos ou "inusitados" como o da "perna cabeluda" (um dos momentos menos compreendidos do filme) são expressões do encontro entre uma história violenta e de um misticismo popular que responde a uma realidade objetiva: a da necessidade de ocultar ou secundarizar a verdade.

A ditadura brasileira não inventou a violência, as elites sádicas, as instituições deterioradas, a comunicação deficitária. Ela alimentou tudo isso de uma forma própria, insidiosa e difícil de neutralizar.

Kleber Mendonça Filho é um diretor muitíssimo importante. Não é um artesão distraído num canto do país. É um articulador grande, capaz de dirigir uma produção que envolve diversos países, um esquema de difusão profissional. Seu filme foi planejado para ser grande. Aliás, mais um com uma extensão de mais de 2h, uma já rebeldia em relação aos formatos acelerados.

No "Agente" há um pouco de cada um de seus filmes anteriores: o jaguncismo urbano de O Som Ao Redor, a sordidez da elite e a burguesia dissidente de Aquarius, a caçada sanguinária de Bacurau e a poética declaração de amor ao Recife e a seus cinemas de Retratos Fantasmas. Tudo vem sintetizado no melhor trabalho de Wagner Moura, interpretações muito especiais, uma direção de arte tão inacreditavelmente boa quanto de um "Ainda".

Esqueçam as críticas. As críticas das críticas. Esqueçam esta crítica. Vão pro cinema. É um tanto de Brasil. No seu melhor.

Um pós-escrito depois dos prêmios, da grande público e do reconhecimento do filme e de seu ator principal Wagner Moura: Viva o fusquinha amarelo! O cinema do Brasil, o Nordeste, a história das milhares, das milhões de histórias de sobrevivência, resistência e memória da luta contra a ditadura! Que alegria saber que os detratores de tudo isso estavam torcendo contra e estão incomodados, mais uma vez. Vivam as donas Sebastianas e as coisas que fez na Itália e que ninguém sabe. Os Marcelos-Armandos (por todos os professores), os Fernandos (por todos os filhos e netos), as Fátimas (por todas as valentes mulheres que fizeram de suas dignidades obstáculos imensos), as Elzas (por todos que se juntaram sem nem precisar), os Hans (por todos os que vieram de longe), as Flávias (por todos os que abriram baús e fitas e não deixaram as vozes dos Armandos morrerem). Vivam as salas de cinema e os seus Alexandres que as mantiveram abertas por décadas escuras. Viva eles e Kléber Mendonça Filho e seus diretores de arte, de figurino. Vitória de muitas qualidades a dizer que é possível. É pouquinho, mas é mais uma vitória porque é uma derrota desta coisa que precisa ser derrotada todos os dias que é a ditadura no Brasil.


*Professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da UFRJ

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